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Devaneios tolos sobre o isolamento



    Eu realmente sinto sua falta em momentos como este. Não que a gente já tivesse vivido algo desse tipo nos nossos trinta e poucos anos, mas se servir para referências futuras; em momentos como este eu sinto uma saudade enorme de você. 

    Andam dizendo por aí que tempos assim servem para nos fazer dar valor à coisas pequenas, aquelas coisas simples e cotidianas e que de tão simples a gente as considera como certas, até que tempos incertos nos mostram que talvez a gente precise seguir um protocolo pra abraçar alguém e que os nossos sorrisos estão restritos aos olhos. E a gente já tá há tanto tempo em casas separadas que nem lembra mais como era perder a hora tomando café em alguma livraria, nem lembra mais da lista de reclamações que surgia quando a gente decidia ir ao cinema e de todas as nossas teorias sobre as produções de qualidade questionável que chegam na cidade. A propósito, precisamos mesmo retomar o cinema porque eu acho que o último filme que vi foi Aves de Rapina e esse não é o jeito adequado de terminar essa relação. Penso nisso e quase posso ouvir a sua risada. Só quase. Sigo presa em digressões. 

    No entanto, o que realmente importa, o que eu venho tentando dizer é que nesses últimos meses eu senti falta de coisas ainda mais triviais. Conversar sobre tudo o dia inteiro todos os dias. Mas conversar mesmo, não esses informativos que atestam que apesar dos pesares estamos nos segurando e seguindo da melhor forma que conseguimos. E principalmente, eu sinto falta do alívio cômico – tal qual nos filmes do Almodóvar –, dos momentos em que independente da carga dramática do assunto que estivéssemos conversando em algum momento surgia uma piada fora de hora e querendo ou não a gente acabava rindo. 

    O engraçado é que conforme os meses foram passando eu fui me percebendo saudosa de coisas que eu nem suspeitava, como o seu cabelo exageradamente macio sem nenhum esforço me mostrando que a natureza nem sempre é justa, ou do seu prazer em me irritar só porque achava engraçado, ou ainda de regular a quantidade diária de café, de planejar grandes mudanças, de aprender a dormir apoiada em você e de acreditar que de vez em quando a vida é sim muito leve.









Imagem: Autor desconhecido


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